domingo, 26 de maio de 2013

JOSÉ CHAGAS: DO EXISTENCIALISMO TARDIO AO FLERTE COM O CONCRETISMO

 
 
As fronteiras geográficas que nos separam vão muito além de questões econômicas ou políticas. O distanciamento do qual somos reféns em um país vasto como o Brasil é, muitas vezes, irredutível. É claro que vivemos na era da globalização e do bombardeio da informação vinte e quatro horas por dia, mas mesmo assim há um distanciamento cultural gritante dentro do próprio território nacional. Há uma diversidade ímpar que nem sempre é compreendida ou partilhada, o que com frequência acaba empurrando os indivíduos para caminhos completamente desconhecidos para o outro.

Seria bastante difícil há duas décadas um livro de um poeta maranhense, não muito conhecido fora das fronteiras de seu estado, chegar em minhas mãos, em Curitiba. Ainda não era comum o uso da internet como é hoje, e as publicações e informações em geral ficavam restritas a veículos impressos. Mas já no ano de 2007, assistindo a uma reprise (online) do programa Espaço Aberto Literatura, apresentado por Edney Silvestre, descobri um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos: José Chagas, de São Luís do Maranhão.

José Francisco das Chagas nasceu em Aroeiras, distrito de Santana dos Garrotes, Paraíba, em 1924. Filho de lavradores, da infância à adolescência trabalhou no cultivo da terra. No início dos anos 40 mudou-se com a família para o Maranhão e em 1948 radicou-se em São Luís. Muito cedo mostrou intimidade com as palavras, e ainda adolescente arriscou seus primeiros sonetos. No início dos anos 50 passou a conviver com poetas e intelectuais locais ligados a uma espécie de existencialismo sartreano tardio. Teve contato direto com poetas da nova geração que combatiam nomes consagrados apegados ainda à forma parnasiana. Da nova geração, Chagas conviveu com Bandeira Tribuzi, Ferreira Gullar, Carlos Madeira, José Sarney e outros intelectuais que seguiam certos aspectos da geração de 45, como a volta à forma fixa, à métrica, rima, etc.

Em 1998 foi lançado Antologia Poética pela Editora Topbooks em parceria com a Editora da Universidade Federal do Maranhão. Na antologia encontra-se sua produção mais interessante desde seu primeiro livro, Canção da expectativa (1955), passando por obras conhecidas como Lavoura Azul (1974), Os canhões do silêncio (1979) e uma das obras poéticas brasileiras mais relevantes do século XX, Alcântara (1994). 

Em Canção da expectativa Chagas oscila muito entre formas livres e sonetos alexandrinos. Aliás, essa oscilação de forma será muito comum em toda sua obra futura. Nos poemas que não têm propriamente uma forma fixa, mas rimas, Chagas explora bastante as antíteses. Nota-se a visão existencialista de simplesmente ser (estar) e não ser mais (não estar).

No livro O Discurso da Ponte (1959) vai se evidenciando uma preocupação social em sua poética. Não chega a ser uma poesia propriamente engajada, panfletária, mas atenta às mazelas de uma classe dominante opressora. Chagas desfila por diversos estilos do fazer poético com uma desenvoltura singular. Passeia por versos livres, formas fixas, flerta frequentemente com o concretismo tornando seus versos leves e diretos.

Recorrente em sua obra, a metalinguagem é o leitmotiv de Lavoura Azul. Em vários poemas deste livro há uma voz que denuncia, como um arauto iconoclasta, que nada existe, que estamos sós em um mundo cruel onde não há divindade alguma.

E uma bíblia nova
conta a lenda triste
do que seja a prova
de que nada existe.

A matéria prima do poema homônimo é a própria abstração do fazer poético, ou seja, não ter matéria prima concretizável. Lavoura Azul, basicamente, é um poema metalinguístico. Chagas discorre sobre a solidão e a dificuldade de transformar sonhos em palavras. A própria forma do poema (soneto) remete ao fazer poético.

A decadência do meio urbano foi se tornando tema constante na obra de Chagas ao longo dos anos. Seu livro mais completo em todos os sentidos é Alcântara, no qual Chagas cria uma espécie de epopeia moderna sobre a decadência e o abandono da cidade de Alcântara, no Maranhão, que serve como um microcosmo dos grandes centros urbanos contemporâneos, com todas sua mazelas possíveis e imagináveis.

Os poemas de Alcântara não são separados por títulos (comum na obra de Chagas) nem por temas. O livro todo é um grande poema no qual aparecem as características caras a Chagas: crítica social, diversificação de estilos poéticos e questionamentos constantes. Em várias passagens Chagas se refere aos "filhos de Alcântara" como criaturas enjeitadas de um meio decadente sem perspectivas de um futuro melhor. 

O vento é um filho legítimo
de Alcântara
só ele sabe a fala materna das águas
mas é dispersivo e esquece
a leitura dos dias

Ou seja, ninguém se considera de fato filho legítimo de Alcântara. Um abandono existencial perpassa todos os versos. Há uma presença inevitável e opressora de desconsolo, dor e sofrimento. Talvez seja o livro mais niilista de José Chagas. Nota-se claramente a  iminência de uma tragédia. Chagas usa um tom sombrio para se referir ao abandono. A desolação de Alcântara simboliza a desolação da condição humana, se aproximando de A Queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe.

Em todos os segmentos do poema há uma espécie de interrupção da realidade por versos rimados. A rima aqui é um artifício usado por Chagas para simbolizar uma intervenção momentânea, uma pausa na dura realidade e no sofrimento que dá lugar a breves momentos lúdicos. O ato de escrever sobre Alcântara em ruínas é claramente assumido, o que volta a um artifício bastante usado por Chagas em toda sua obra: a metalinguagem.

Esta Antologia Poética se encerra com uma seção intitulada Inéditos, com poemas não publicados até então. José Chagas mantém nos seus inéditos suas características principais, como o apego ao soneto e à forma livre ao mesmo tempo, a metalinguagem, a denúncia social, etc. Poeta praticamente desconhecido fora do Maranhão, é uma das vozes mais autênticas e originais da poesia brasileira contemporânea.

     

domingo, 12 de maio de 2013

PEQUENO PERFIL CURITIBANO: NUMA TARDE APOCALÍPTICA E NOUTRA ENSOLARADA



(Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo - Maio 2013)

Descobrir autores novos é uma experiência interessante. Ler algum desconhecido que pouca gente leu é um desafio e ultimamente tornou-se uma obsessão. Nas minhas andanças pelas livrarias e sebos de Curitiba em busca de autores curitibanos não contemplados pela grande mídia descobri muita gente. Escritores que estão escondidos em suas alcovas bem longe do público leitor.

Em uma visita à loja das Livrarias Curitiba da Rua XV, num daqueles momentos ímpares em que entramos em uma livraria sem compromisso algum, sem nenhuma pressa, escondido entre Cristóvãos Tezzas e Daltons Trevisans (na seção de autores paranaenses), estava um pequeno volume intitulado Pequeno Perfil curitibano:numa tarde apocalíptica e noutra ensolarada, de Jul Leardini. Mais que prontamente retirei o exemplar da estante e olhei nas outras prateleiras tentando encontrar outros livros do mesmo autor. Não encontrei, e com o livro devidamente comprado, não pude parar de pensar no título, que me encantou. Esse é o perigo em encontrarmos um conterrâneo literato: criamos mil expectativas.

Jul Leardini nasceu na cidade de Cianorte, em 1961, mas veio cedo para Curitiba, com cinco anos de idade. Publicou Contos e Encontros (1991), No Mundo dos seres diáfanos (2003), Pequeno perfil curitibano: numa tarde apocalíptica e noutra ensolarada (2005) e peças de teatro, como Pacto da Mediocridade (2004), O Discurso da América (2004), Aos poucos ouvidos moucos que virão falaremos um pouco da nossa escuridão (1999) entre outras.

Em Pequeno Perfil Curitibano: numa tarde apocalíptica e noutra ensolarada (publicado pela Lei de Incentivo à Cultura), Jul Leardini reúne sete contos que não apresentam nenhuma unidade temática entre si. O conto inicial, que dá título ao livro, passa a falsa impressão de que o autor abordará algumas questões sobre a origem da casmurrice curitibana. Neste primeiro conto Leardini tenta entrelaçar duas narrativas paralelas, mas o resultado é uma breve e rasa tentativa de fluxo de consciência. O título do conto é muito mais denso do que o próprio conto.

O conto seguinte, O herói brasileiro, apresenta diálogos artificiais demais em situações pouco exploradas que acabam se tornando amontoados de acontecimentos que tentam fazer algum sentido. A falta de verossimilhança é uma constante em quase todos os contos. Basicamente, o conto narra uma situação em que um empresário rico da capital vai até uma cidade não nomeada do interior para comprar as últimas terras disponíveis ainda nas mãos de um fazendeiro local. Leardini evidencia o tempo todo um maniqueísmo juvenil e panfletário no qual o explorado (o fazendeiro com princípios morais e éticos) não se corrompe ao poder avassalador capitalista. Leardini também peca na construção destes diálogos entre o empresário e o fazendeiro usando em demasia uma linguagem fora de contexto e o pretérito imperfeito.

Nessa altura, pessimista por natureza, não imaginava que pudesse encontrar algo relevante pela frente. O terceiro conto, O Espelho, faz justiça à força e beleza do título do livro. Conto denso, esteticamente bem construído, alterna duas vozes de um personagem enigmático que faz referência ao assassinato de uma mulher. Durante toda a narrativa há uma atmosfera onírica, delirante e noir que confere uma marca autêntica ao autor. As imagens refletidas em um espelho em estilhaços tratam da questão da dificuldade do indivíduo em se encontrar. É uma belíssima metáfora sobre identidade.

O Espelho é o que o livro apresenta de melhor. A relevância do livro começa e termina com este conto. Os contos que vêm a seguir voltam a apresentar os problemas de estrutura dos contos iniciais. Contradança é composto por uma quantidade absurda de adjetivos, tornando a leitura complicada e aborrecida. A composição da narrativa é descontínua, quase ao nível da redação de vestibulandos.

A seguir vem Tal um, qual outro, conto em que Leardini deixa transparecer pequenas lições de moral sobre honestidade e a culpa daqueles que são desonestos. Isso depõe contra sua literatura, pois não é papel da ficção apresentar conflitos moralizantes para, em um movimento catártico, chegar a um momento nevrálgico. Também há claramente um descontrole, uma falta de domínio do uso do foco narrativo.

Sete de Setembro e O Cisne fecham o volume sem surpreender. Também mostram um autor inexperiente que não domina a técnica narrativa e com exceção do belíssimo O Espelho, não tem muito a dizer na narrativa curta. Quem sabe Jul Leardini guarde um volume inédito seguindo a linha de O Espelho. Minha busca ainda não cessou.

domingo, 28 de abril de 2013

ANTÓNIO LOBO ANTUNES: DA GUERRA COLONIAL À REVOLUÇÃO DOS CRAVOS



                                      (António Lobo Antunes com soldados angolanos - 1972)

A guerra da independência de Angola foi fonte inesgotável para muitos escritores portugueses da chamada geração pós 25 de abril. Lídia Jorge tratou desta temática em seu romance A costa dos murmúrios (1988) com grande desenvoltura e conhecimento de causa.  Almeida Faria, autor de Lusitânia (1980) não tratou da guerra colonial como tema isolado neste seu romance, mas procurou abordar com mais cuidado as relações distintas do indivíduo português após a Revolução dos Cravos e suas consequências para uma classe média não operária e todas as mudanças que vieram com a revolução. A guerra colonial e a permanência do exército português em África são tão criticados quanto à situação que se instaura no país após a revolução.

Porém, poucos autores exploraram tão a fundo essa temática quanto António Lobo Antunes, que esteve em Angola como oficial do exército português entre 1970 e 1973. Portugal vivia em um regime fascista agonizante, principalmente após a morte de Salazar (1889 – 1970) enquanto as tropas portuguesas sofriam baixas consideráveis em seu contingente pois, em Angola, os soldados portugueses se depararam com uma guerra civil, foram vítimas de técnicas de guerrilha, pois os Angolanos não tinham o mesmo poder bélico de Portugal, então partiram para o contato físico direto.

Nos dois primeiros romances de Lobo Antunes, Memória de Elefante (1979) e Os Cus de Judas (1979), os protagonistas são médicos psiquiatras que estiveram em África na guerra colonial e voltaram para Portugal sofrendo grandes crises existenciais. Ambos os livros são autobiográficos e retratam a dificuldade do indivíduo em se readaptar à sociedade depois de ter visto os horrores da guerra. Dificuldade em se relacionar com outras pessoas, relações sociais e amorosas, divórcio, perda da guarda dos filhos e vários outros problemas se tornam irredutíveis na vida desses protagonistas anônimos e a única solução que encontram é o isolamento, a solidão.

A incursão de Lobo Antunes em um tema tão forte como as marcas deixadas pela guerra o acompanhará durante boa parte de sua obra ficcional. Livros como O Esplendor de Portugal (1997), O Manual dos Inquisidores (1996), Exortação aos Crocodilos (1999) já apresentam um estilo bem diferente dos romances iniciais do autor. Além de o universo temático de Lobo Antunes ter se tornado mais abrangente, a estrutura linguística dos romances publicados a partir dos anos 90 apresentam uma mudança formal muito significativa, pois grande parte dos enredos explorados por Lobo Antunes nesta “nova fase” de sua obra têm como objetivo central não o enredo em si, mas em como esse enredo será apresentado ao leitor. Percebe-se uma incursão por técnicas narrativas mais apuradas que em suas primeiras obras, como a ausência de pontos finais nos fins de períodos, o uso constante do discurso indireto livre e do fluxo de consciência. Algumas dessas técnicas exploradas por Lobo Antunes (como o fluxo de consciência) são muito mais comuns naqueles romances em que há mais vozes, pois é uma técnica que auxilia o discurso no tempo psicológico, portanto faz mais sentido usá-lo em um enredo em que há mudanças constantes de narrador e de foco narrativo do que nos enredos mais lineares e com o foco narrativo em terceira pessoa.

Nos seus livros publicados do ano 2000 em diante, como Não entres tão depressa nesta noite escura (2000), Que farei quando tudo arde? (2001), Boa tarde às coisas aqui em baixo (2003), Eu hei-de amar uma pedra (2004), Ontem não te vi em Babilónia (2006), O meu nome é Legião (2007), O arquipélago da insônia (2008) e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009), Sôbolos rios que vão (2010), Comissão das Lágrimas (2011), Lobo Antunes explorou muito questões relacionadas à perda, seja financeira, física, moral ou emocional, a perda, seja ela qual for, é o mote de praticamente todas as obras recentes do autor de Os Cus de Judas. E em quase todos os casos os indivíduos que convivem com a perda não têm uma relação social e familiar pacífica, vivem uma vida de negações, projetos que nunca se concretizarão e dessa maneira se veem num labirinto existencial sem solução, sem saída e niilista.

O Manual dos Inquisidores e as faces do 25 de abril

Depois de certo tempo vivendo sob um regime fascista, o povo português estava saturado de um regime autoritário e repressor. O povo ansiava por mudanças a qualquer custo, e esse desejo por mudanças culminou na Revolução dos Cravos, no dia 25 de abril de 1974. Muitos escritores se engajaram nesta empreitada em prol de uma suposta liberdade que viria com a derrocada do regime salazarista, mas o que veio logo a seguir não foi a tão almejada liberdade há tanto tempo esquecida, mas sim um período de transição complicado de uma ditadura fascista de extrema direita para um governo também autoritário de esquerda com princípios stalinistas.

No livro O Manual dos Inquisidores (1996) António Lobo Antunes descreve sob vários narradores e aspectos as consequências da Revolução dos Cravos, como falência financeira e moral, perda de bens, perda de cargos públicos e a tomada do poder por forças operárias e o exílio de ministros e pessoas em geral ligadas ao governo deposto. O romance mesmo não tendo um personagem principal, gira em torno do drama de Francisco, um homem que no passado foi ministro da defesa durante o governo de Salazar, homem conhecido por sua servidão ao ditador e por ser, por sua vez, ditatorial em seu mundo, que restringe-se à casa em Lisboa, à quinta em Palmela, no convívio com as amantes e empregadas e com seus funcionários do ministério.

Durante toda a narrativa há uma espécie de eco que trespassa todo o romance, que é a própria voz do ministro que dizia que nunca tirava o chapéu, pois era um sinal de hierarquia. Dizia o ministro:

Nunca devia ter tirado o chapéu da cabeça para que se soubesse quem era o patrão (p.14).

Esta é uma das diversas formas que Lobo Antunes mostra como um regime autoritário atinge até os próprios agentes do governo, pois essa ideia de nunca tirar o chapéu para mostrar quem manda é um discurso completamente fora da realidade e provinciano, como se fosse proferido por um coronel feudal decadente que vê na imposição de certos caprichos e regras sem sentido a única maneira de impor respeito.

É interessante ressaltar que o poder neste romance não tem apenas um detentor, pois há três momentos separados: a fase de opressão durante a era Salazar; o período de transição entre uma ditadura e uma pseudodemocracia e uma era nova, de governo democrático capitalista. Um personagem singular no romance é João, filho do ministro Francisco que herda suas terras e propriedades, mas devido à situação geral de Portugal pós 25 de abril perde tudo para a família de sua ex-esposa, donos de banco. João foi vítima de um golpe financeiro que além de o deixar falido financeira e moralmente, fez com que o ministro, no fim da vida, fosse abandonado num lar para idosos.

Todas as idas e vindas dos vários narradores servem como representação de um desespero coletivo que assola Portugal em épocas incertas, seja durante a ditadura ou não. A vida coletiva após a revolução adquire certa cor, enquanto a vida privada, tal como era antes, deixa de existir. As mudanças de poder refletem um estado sem perspectivas vindouras com uma população cada vez mais alienada, que é simbolizada pelos abandonados no fim do romance, o ministro e sua ex governanta, Titina.

Esses dois personagens dão o tom mais amargo do romance, pois já abandonados em um asilo, deliram e imaginam que em breve alguém virá buscá-los. Interessante aqui é que Lobo Antunes dá a entender que os dois estão no mesmo asilo, mas em momento algum se encontram, sabem da existência um do outro mas em sua alienação, em sua doença, se ignoram por completo. É uma metáfora sobre a população portuguesa que caminha sem rumo, sem objetivos após sofrer perdas irreparáveis, como foi o caso de João, que perdeu a fazenda; ou de Milá, ex amante do ministro que vivia com a mãe em um apartamento de classe média alta e após o 25 de abril, como o ministro perde seu poder e sua influência, Milá com sua mãe são expulsas do apartamento onde moravam depois de passarem dificuldades financeiras e humilhações dos vizinhos.

Esses personagens são alguns dos vários exemplos de pessoas diretamente atingidas pelo impacto da Revolução dos Cravos, e passam a viver em uma espécie de situação limite em que a qualquer momento algo pode acontecer. Vivendo na iminência de algo ainda mais dramático acontecer, as pessoas, João e Milá são apenas alguns exemplos dessas pessoas, tornam-se prisioneiras de uma situação absurda da qual não podem se livrar, e por isso se alienam e é como se a vida que tiveram anteriormente nunca tivesse existido.   

Conhecimento do Inferno e a gênese da polifonia

Com a publicação de Conhecimento do Inferno (1980) Lobo Antunes passa a um novo patamar na literatura portuguesa contemporânea. Conhecimento do Inferno é o último romance que compõe uma trilogia sobre os horrores da guerra colonial juntamente com Memória de Elefante (1979) e Os Cus de Judas (1979).

Os dois primeiros livros se assemelham muito em relação ao estilo e seus enredos são muitos circulares, pois ambos retratam o retorno de um médico psiquiatra de Angola para Lisboa ao fim da guerra naquele país.  As referências históricas, além de elementos autobiográficos, são marcas que permeiam esses três romances iniciais de Lobo Antunes, porém, a experimentação lingüística tão presente em suas obras mais recentes e ainda não explorada nos dois primeiros livros, passa a fazer parte do universo ficcional do autor a partir de Conhecimento do Inferno, com menos diálogos em um plano físico e mais fluxo de consciência.

Aparentemente o enredo de Conhecimento do Inferno é muito simples. O livro retrata uma viagem pelo sul de Portugal feita por um médico psiquiatra depois de voltar de Angola no início dos anos 1970. Novamente a temática da guerra colonial se faz presente na ficção de Lobo Antunes, porém sob uma perspectiva mais sombria em relação à guerra, em relação à vida e à própria psiquiatria.

O romance é dividido em 12 capítulos e cada um desses capítulos centra-se em um ponto geográfico específico da viagem. A viagem desse psiquiatra desenvolve-se em vários níveis narrativos, como no percurso percorrido no carro, em suas recordações da infância, nas recordações de Lisboa antes de ir pra África e das recordações dos horrores da guerra. Todos esses aspectos se interpõem através de uma voz narrativa que permeia todo o romance, porém, em alguns momentos, há mais de um narrador. Um deles é o próprio personagem principal, tornando o romance auto-diegético, e outra voz, essa em terceira pessoa, onipresente e onisciente.

Durante suas recordações de seu trabalho como psiquiatra há dois tópicos distintos: um deles é sua prática médica em Lisboa antes de embarcar para Angola; o outro é sua prática médica em África, durante a guerra. São tópicos distintos porque nas recordações de Lisboa, a psiquiatria e a medicina geral são retratadas como ciências inúteis e cruéis, que além de maltratar seus pacientes, colocam os médicos em um nível superior, e naturalmente essas passagens são descritas com um humor ferino.

- Foi você quem disse que a Psiquiatria é mais nobre das especialidades médicas? – perguntou ele. – Gaita, se eu soubesse o que sei hoje tinha seguido dentista (p.62).

Já nas recordações de Angola, a psiquiatria não existe, com exceção de alguns flashbacks de seu trabalho em Lisboa, pois na guerra não há espaço para a psiquiatria, e isso vem de encontro à tese que Lobo Antunes, o autor e o personagem, defende no romance, que é a inutilidade do que faz e que por conseqüência é a inutilidade de toda uma vida, o que remete à náusea sartreana. O que de fato importa na guerra é a sobrevivência física, pois a mental já está, automaticamente, condenada. É impossível retornar para casa, e isso torna-se evidente, sem traumas, sem lembranças dos acontecimentos terríveis presenciados numa guerra cruel. Nota-se claramente essa distinção espacial entre Lisboa e África tanto na narrativa auto-diegética quanto no foco narrativo em terceira pessoa.

Outro aspecto relevante da narrativa de Conhecimento do Inferno que evidencia bem essa nuance da troca de foco narrativo, é a autocitação. António Lobo Antunes, o autor do romance Conhecimento do Inferno, cria um personagem fictício para ser o condutor (ficcionalizado) da realidade, ou seja, o Lobo Antunes real traz realidade à sua ficção, tornando seu texto complexo e experimental, muito mais do que uma simples narrativa auto-biográfica, chega a ser um mosaico pós-moderno sobre as angústias do homem contemporâneo.

Conhecimento do Inferno foi uma espécie de livro de transição de António Lobo Antunes, pois é a partir desta obra que o autor de Os Cus de Judas passa a explorar com mais perícia os meandros da polifonia e da experimentação lingüística. É com Conhecimento do Inferno que Lobo Antunes assume de fato uma postura diferenciada na literatura portuguesa, é com este romance que ele mostra que não há necessidade de contar um história para produzir um grande livro, mas explorar a mente de seus personagens para atingir o domínio da técnica narrativa.
 

domingo, 14 de abril de 2013

LÉAH E OUTRAS HISTÓRIAS: JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS ENTRE O PRESENCISMO E O NEORREALISMO

Há uma relevante produção narrativa na literatura portuguesa a partir dos anos 30. É um resgate da narrativa que esteve em baixa durante o início do século XX  muito por influência do orfismo. A Revista Presença foi responsável por uma espécie de ruptura com os orfistas que se ocuparam, em sua maioria, com a poesia. Nomes como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros criaram Orpheu que, em 1915, constituiu a gênese do Modernismo português.

Em uma espécie de movimento transitório entre o orfismo e o presencismo, surge o neorrealismo, com suas narrativas de cunho social e panfletário. No Neorrealismo não há espaço para a poesia, para os experimentalismos e divagações do orfismo nem para a "literatura viva" e espontânea do presencismo. Esse imediatismo e clareza só são alcançados com a prosa direta, enxuta e pouco adjetivada dos neorrealistas.

Porém, mesmo com vários autores se vinculando literariamente ao Neorrealismo, outros negaram esse vínculo ou qualquer outro tipo de rótulo, como José Rodrigues Miguéis. Autor de obra vasta, Miguéis foi praticante de vários gêneros literários como romance, ensaio, crônica, teatro e conto, e foi na narrativa curta em que se sobressaiu. Exímio contador de histórias e profundo conhecedor da língua portuguesa, Miguéis explorou diversos aspectos da narrativa curta, como temas históricos, surreais, experimentais de influência simbolista, mas Miguéis sempre foi, além de indivíduo comsmopolita, um escritor cosmopolita. Grande parte de seus textos tem como espaço lugares diversos (não portugueses) ou não nomeados, fato que pode até frustrar leitores mais tradicionais da Literatura Portuguesa, mas são narrativas fortes, muito bem construidas esteticamente.

O livro Léah e outras histórias (1958) é seu trabalho mais relevante. O volume reúne dez contos sem nenhuma ligação temática entre eles. Em alguns dos contos Miguéis explora outros espaços, o que torna suas narrativas bastante universais. O primeiro conto do volume, Léah, narrado em primeira pessoa (o que confere um tom mais intimista à narrativa) conta a história de um português que vai a trabalho para Bruxelas. Ficando hospedado em uma pensão, o narrador-personagem se apaixona pela camareira, Léah, figura misteriosa e enigmática que aos poucos vai se envolvendo mais intimamente com o protagonista e depois some sem deixar vestígios. O conto apresenta uma atmosfera um tanto noir sem oferecer respostas para os vários questionamentos do narrador.

Miguéis também flerta com a ficção policial no conto Dezasseis horas em missão secreta, em que um agente secreto não nomeado chega em um lugar também não nomeado, mantendo um certo mistério até o fim da narrativa. A ação, um tanto kafkiana, mostra um agente caricato que não tem muita noção do papel que irá desempenhar em sua missão. Uma espécie de sátira das histórias detetivescas americanas.

Vários dos contos merecem destaque, como Uma viagem na Nossa Terra, que narra uma belíssima viagem entre as cidades do Porto e Lisboa, mostrando com minúcias paisagens e costumes das mais variadas. É um belo painel geográfico de Portugal visto por um dos homens (a viagem é feita por dois casais) que tem uma visão um tanto crítica do que vê. Em momento algum Miguéis entra no viés da crítica social, mesmo estando de alguma forma ligado, à distância, ao neorrealismo. As obras neorrealistas que narravam algum tipo de viagem normalmente serviam como denúncia das mazelas que corrompiam os seres dominados por uma classe burguesa opressora. Miguéis se ocupa em explorar os dramas pessoais de seus personagens, que muito se assemelham entre si.

O melhor conto do livro foi deixado para o final, O Morgado de Pedra-Má. O conto narra os últimos dias de Dom João de Berredo e Chinchorro de Baticova, o Morgado de Pedra-Má. Morgado é o filho único ou único herdeiro, normalmente vinculado a alguém que não vive de seu próprio esforço. No conto, o Morgado de Pedra-Má é um fidalgo autoritário que vive em seu palacete sozinho com seus criados. Recebeu a alcunha de Morgado de Pedra-Má por ter algum vínculo obscuro com uma pedra que, segundo os moradores do vilarejo, em alguns momentos reluzia a imagem de uma cruz. Mas a imagem era vista (mesmo nunca tendo sido vista por ninguém) como maligna, e todo o poder do Morgado vinha dela.

Os fatos que seguem são narrados com maestria por Miguéis que, como poucos, consegue manter um tom misterioso sem cair no clichê policialesco hollywoodiano. O Morgado vai sofrendo uma espécie de transformação psicológica conforme suas alucinações acerca da Pedra-Má vão se tornando cada vez mais fortes. Ele se tranca em sua alcova quando descobre que seu cachorro desaparece sem deixar vestígio algum, destroi tudo no quarto, atira objetos pela janela, e enquanto isso o povo todo do vilarejo observa esse terrível processo de loucura. É interessante ressaltar que o Morgado é dominado pela loucura provavelmente por um sentimento de culpa, e a imagem da Pedra-Má como fonte de seus males é um símbolo de sua expiração. O fim é trágico e não deixa brechas para nenhum tipo de recomeço.

José Rodrigues Miguéis é um escritor português que viveu a maior parte de sua vida no exterior. Morou na Bélgica, no Brasil e nos Estados Unidos, mas nunca perdeu suas origens lisboetas como homem nem como escritor. Pouco conhecido no Brasil, é um dos contistas mais relevantes de língua portuguesa do século XX. Não se vinculou totalmente às estéticas vigentes em seu tempo e de fora (como auto-exilado) tornou-se um fino observador de Portugal. Deixou uma obra vasta que merece atenção crítica.    

segunda-feira, 8 de abril de 2013

PEQUENA BIOGRAFIA DE DESEJOS: ODISSEIA AO REDOR DE SI MESMO



(Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo - Abril - 2013)

Existe literatura em Curitiba. Nem todo mundo sabe, mas os autores estão aí, produzindo, trabalhando, publicando. Tudo bem que há uma movimentação editorial ainda em embrião (muitos curitibanos publicam por editoras do Rio, São Paulo, Porto Alegre), mas há um movimento literário forte em Curitiba que não segue necessariamente um padrão ou uma tendência específica.

Boa parte dos escritores curitibanos escrevem mas ainda não publicam com regularidade. A maioria não tem contrato com editora nem vínculo formal com algum órgão de comunicação. Fato interessante, porém nada novo, é que grande parte desses escritores ainda não publicados escreve poesia. Há muitos poetas anônimos, alguns bons, outros muito bons, outros irrelevantes, outros péssimos. Mas é fato que a maioria se ocupa com a poesia. Onde estão os contistas e romancistas da nova geração curitibana? Há vida inteligente depois de Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza?

Sim, há. E da melhor qualidade. Cezar Tridapalli, escritor curitibano nascido em 1974, publicou em 2011 o romance Pequena Biografia de desejos (7Letras), no qual narra as agruras e peripécias de Desidério, um porteiro que nutre em segredo o desejo de tornar-se escritor. Sua busca por uma voz literária própria é repleta de percalços e fracassos que o tornam muito humano.

Desidério é um sujeito provisório, de passagem, ou seja, ele não tem bagagem literária, cultural, e o desejo (a escolha do nome do protagonista não foi por acaso) de escrever torna-se sua maior ambição, beirando a obsessão. Durante toda sua jornada a certeza da não realização de seus projetos literários vai se evidenciando cada vez mais, mas ele não desiste.

O anti-herói de Pequena Biografia de desejos só não é completamente brutalizado pela rotina porque torna-se um leitor assíduo. Ingênuo, inexperiente, mas voraz. Todos os dias faz o mesmo trajeto de casa para o trabalho em dias que não acontece nada diferente. Desidério vai sofrendo uma espécie de emparedamento metafísico irredutível durante toda sua vida. Seu casamento, suas lembranças da infância quando foi abandonado pela mãe, a presença do pai vegetal o empurram a um abismo que parece não ter fim.

Porém, quando de fato está emparedado (literalmente) na guarita do prédio onde trabalha, se liberta. Liberta-se através dos livros que lê e das várias narrativas que escreve, como um Winston Smith que, à espreita em um canto escuro da alcova, busca seu momento de epifania.

Cézar Tridapalli acertou em optar pelo foco narrativo em terceira pessoa porque os movimentos de Desidério precisavam ser acompanhados por um narrador onisciente. Ao mesmo tempo, as costuras que Tridapalli faz entre a voz do narrador onisciente e imparcial às narrativas de Desidério são os artifícios mais eficientes do romance. A metalinguagem é explorada de forma consciente, na medida certa, sem tornar-se cansativa e experimental demais. Essas são características caras às estéticas chamadas pós-modernas.

Pequena Biografia de desejos chama a atenção também por ser o romance de estreia de Tridapalli. Narrativa envolvente, movimentada que em momento algum cai no senso comum, no clichê pós-moderno artificial. Cézar Tridapalli estreou na narrativa longa com um romance de peso, de gente grande. Há muito mais a ser mostrado na terra de Trevisans, Tezzas, Buenos, Leminskis...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

ALEXANDRE KRAMER: HERDEIRO DOS MALDITOS


Ter amigos escritores nem sempre é bom. Tenho centenas de amigos escritores e, sendo crítico, esse tipo de relação me traz alguns problemas. Como ser imparcial? Como construir uma crítica negativa e conseguir se desvencilhar, por algum momento, da relação afetiva? Não há uma fórmula ou um modo padrão para seguir, mas como tenho sorte nesse aspecto, mais uma vez resenho um livro de um amigo que é um grande escritor.

Ainda desconhecido do grande público, Alexandre Kramer, colega de graduação e de magistério, há algum tempo trabalha em um extenso volume de poemas ainda não intitulado. Neste volume, Alexandre Kramer reune poemas escritos em várias fases de sua trajetória poética. Desde poemas escritos na época da graduação em noitadas regadas a grandes quantidades de álcool, nas quais eu estava presente, até sua fase mais madura, atual, mas não menos inquieta.

Parece que em seus versos há a presença constante de uma voz que grita, acusadora, as mazelas e hipocrisias de um ambiente urbano decadente, sujo, sombrio e grotesco, às margens do absurdo do cotidiano. Alexandre Kramer não propõe soluções utópicas para  resolver todos os problemas sociais que nos assolam todos os dias como um arrogante revolucionário panfletário, pois seus questionamentos vão muito além da simples revolta social coletiva. Seus poemas denunciam, de forma visceral, questões existenciais que não são transparentes nem óbvias em um status quo dominante.

As rimas irregulares, a ausência de métrica e cadências diversificadas conferem um tom bastante leve aos poemas de forma geral, tornando a leitura fácil e agradável. Seus poemas são de extremo bom gosto, dignos de leitores atentos aos meandros poéticos dos mais rigorosos. Resta esperar o Sr. Alexandre Kramer definir um título ao livro e publicá-lo. Enquanto isso não acontece, seguem dois poemas do volume para apreciação do leitor.

Concreto

Troncos pontiagudos
Cinzas
Pontudos
Olhando
O
Céu
ceu
fel
re
fel
teu
No
céu
mor
reu
Ca
bo
Se
fo
Descobriu
o
cheiro
podre
da
vi
da
vi

vi

vi
da

estou curado!

Mundo de poeta

Para Pessoa
o poeta finge.
Para mim
O poeta mostra o mundo.
O mundo é um fingimento,
E o fingimento é o mundo.
Se Pessoa tem o mundo como um fingimento,
eu tenho um fingimento como o mundo.
Somos duas pessoas
Reféns desse mundo fingido.
Eu e Pessoa,
Fingindo um mundo
por querermos viver
Onde exista apenas a nossa verdade
E não precisemos fingir para viver de verdade.   

domingo, 25 de novembro de 2012

NOTA


O texto que segue foi escrito há um ano, mas só é publicado agora por motivos diversos. O principal deles é o problema que tive com o antigo Blog, o qual não conseguia acessar por ter tido alguns percalços com minha senha. Mas aqui está. Devidamente publicado e com algumas alterações. A homenagem é singela, mas honesta.