domingo, 3 de julho de 2016

A IMAGEM DO CENTAURO: SÍMBOLO E MITO


 
Era-lhes fácil achar-se na sociedade; o difícil era, para eles, perder-se nela, sumir.
Walter Benjamin

 
Na mitologia grega o centauro surge como um ser híbrido, ambivalente, principalmente pelo fato do significado da palavra centauro [1], que permite algumas considerações. Primeiramente, há de se levar em consideração o mais célebre dos centauros, Quíron, filho de Filira e Cronos, que simbolizava a força aliada à bondade e à inteligência. Isso já mostra a dicotomia desse ser fantástico, sem falar de sua aparência, metade homem, metade cavalo. Em O Centauro no Jardim, obra-prima de Moacyr Scliar (1980), seu protagonista, Guedali, toca violino, alusão também à figura do célebre centauro da antiguidade. Há nessa descrição um misto de sacro (a imagem do violino, música) com o grotesco (a imagem do próprio Guedali, a fera, anomalia).

            Segundo René Ménard, no livro Mitologia Greco-Romana (1991), os centauros eram seres que personificavam as forças desenfreadas da natureza, simbolizando a fúria, a devassidão e a embriaguez. As histórias de centauros da antiguidade estão quase sempre ligadas à barbárie. Segundo a lenda, os centauros foram convidados para o casamento de Pirítoo [2] e nessa ocasião, por consequência da embriaguez pelo vinho, os centauros tentam raptar a noiva, fato que desencadeia uma batalha sangrenta e a expulsão dos centauros da Tessália [3].

            O surgimento do mito do centauro não tem uma história certa, há várias hipóteses. A mais conhecida delas é associada aos vaqueiros habitantes das montanhas da Tessália. Explica Ménard:

Os montanheses da Tessália, da época pelásgica, já eram excelentes cavaleiros quando o uso de montar a cavalo não era conhecido no resto da Grécia. Foram considerados pelos vizinhos espantados como monstros, e por gostarem de vinho, as lendas mitológicas os classificaram imediatamente no cortejo de Baco (MÉNARD, 1991, p. 139. V. 3). 

Surge aí o mito, pois a palavra centauro significa matador de touros, ideia associada à prática dos vaqueiros. E o significado do mito é exatamente esse, explicar por meio de narrativas com cunho fantástico ou sagrado, as ações dos homens na terra. Os mitos eram muito comuns na antiguidade, serviam como uma necessidade de segurança, de impôr à população, através do medo, respeito ou veneração, a ideologia dominate, seja religiosa, política ou filosófica. 

            No romance de Scliar, Guedali muitas vezes se questiona sobre sua origem. Através de suas pesquisas o herói passa a procurar seres como ele, semelhantes seus que de alguma forma o ajudem a encontrar respostas ou um significado para sua existência. Um dos símbolos mais significativos no romance é exatamente a incompreensão de Guedali com ralação a si próprio, como ser ambivalente que é, e isso remete claramente à imagem dos centauros da antiguidade como seres bárbaros, pois a sua incompreensão o leva a cometer um ato de barbárie. Há uma passagem do romance que mostra bem esse fato, quando Guedali, movido por um sentimento de culpa, chega a se autopunir.

 
De madrugada,  tento me matar. Sozinho no porão, extraio de uma tábua podre um grande prego. Golpeio-me repetidamente o dorso, o ventre, as patas, o peito, mordendo os lábios para não gritar. O sangue brota, não paro, continuo a me ferir (SCLIAR, 1980, p. 35 e p. 36).    

 
            Esse ato brutal de Guedali serve como uma metáfora sobre a condição mitológica dos centauros da Tessália, seres considerados brutais e promíscuos. Porém, em contrapartida, há um outro símbolo muito relevante no romance, que é a alusão de Guedali ao centauro Quíron. O centauro Quíron é um caso raro de sua espécie, pois ao contrário de seus ancestrais, guerreiros promíscuos e bárbaros, foi professor e instrutor de Aquiles, Heráclito e Jasão, possuidor de vasta cultura, conhecimento e bondade.

            Assim como Quíron, Guedali é um ser também possuidor de certo conhecimento, saber e de bondade. Fato que o aproxima e o distancia do centauro Quíron, pois ao mesmo tempo em que Guedali é uma metáfora e uma alusão a Quíron, personifica a alienação de toda uma classe. Guedali carrega as atribuições de seu ancestral, porém pende mais para o lado do grotesco e suas ações o levam a cometer erros. Portanto, Guedali incorpora, numa sutil metáfora no romance, a dupla personalidade dos seres mitológicos dos quais descende, a brutalidade dos guerreiros e a bondade e inteligência de Quíron.

            A odisséia de Guedali nada mais é do que a tentativa de realizar o seu momento de epifania, de realizar um encontro consigo mesmo, de teor cultural, religioso e metafísico. No livro Tempo e Poesia, Eduardo Lourenço reflete sobre essa temática do encontro, que para ele é inevitável, do homem com o mito e consigo próprio. Relata Lourenço;

 
Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites (...) A aventura é impossível pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita  (1974, p. 27).

 
            Eduardo Lourenço intitula o primeiro capítulo deste livro de “Poética Mítica”, no qual reflete sobre a origem do mito e sua influência sobre o homem. Pode-se aplicar a idéia principal deste fragmento às desventuras de Guedali, pois como descreve Lourenço, a aventura para Guedali, em um sentido mais lúdico, torna-se impossível diante da presença real e devoradora de sua própria imagem e de suas sombras. Guedali é uma criatura envolta nas nebulosas imagens que chegam a atingir em grande parte da narrativa uma atmosfera onírica. E dessa forma seus atos seguem uma direção oposta à de seus intuitos.

            As intenções de Guedali geralmente são bloqueadas por barreiras impostas pelo acaso ou por alguma falha sua, como a ida para São Paulo às vésperas do golpe militar de 1964, e depois a mudança para o condomínio horizontal. Quando Guedali e Tita ainda moravam em São Paulo, certa noite foram convidados para comemorar o aniversário de uma amigo, Paulo, na casa deste, e para lá se dirigiram. Nessa passagem do romance há muitos símbolos e metáforas que são pertinentes para a compreensão do texto.

            Nessa passagem, em determinada hora da noite, quando todos os colegas se divertiam assistindo a filmes pornográficos, Guedali decide ir para o jardim da casa para tomar ar fresco, e lá encontra Fernanda, esposa de Paulo. Os dois, dominados por um desejo incontrolável, se entregam à uma relação sexual voraz e selvagem. Terminada a relação os dois entram em casa e tudo continua normalmente.

            O que é relevante perceber nessa passagem é o significado do ambiente, do jardim, que aqui aparece como sendo uma espécie de microcosmo, na qual Guedali encontra diversos elementos que de certa forma contribuiram para as mudanças de identidade pelas quais passou. O seu desejo incontrolável por Fernanda naquele  momento é um resquício de sua natureza animal, pois aqui Guedali já havia passado pela transformação de centauro para homem. A natureza brutal dos centauros, seus antepassados, aqui torna-se real e como sempre ocorre em seus atos, submerso em uma atmosfera onírica e nebulosa. A sua natureza animal aqui, que para Guedali já fazia parte do passado, volta à tona com força e o perturba de forma significativa.

Sentei no banco, aturdido. O que tinha acontecido? Eu não sabia. Só sabia que tinha o olhar turvo, e que o coração ainda me batia forte - e que a pata direita, me dei conta, tremia convulsamente. Segurei-a: pára, diaba, pára quieta (SCLIAR, 1980, p. 139).  

            Ainda aqui Guedali possuia patas, mesmo depois da operação ele não havia se tornado um homem por inteiro. A natureza animal nessa passagem prevalece sobre a humana, pois além de ainda possuir patas, ele não pode controlá-las, e dessa forma a imagem delas remete aos centauros guerreiros da Tessália, aos cavalos dos cossacos durante os pogroms [4] na Europa, que pisoteavam os judeus das aldeias, espalhando terror e acentuando ainda mais a aversão dos judeus por cavalos.

            Um fato curioso e importante inclusive para a compreensão do título do romance é esse encontro de Guedali com Fernanda no jardim. Há de se levar em consideração a atual situação de Guedali quando esse fato ocorre, ele já era um “ser humano”, pelo menos aos olhos dos outros. Mas sua voracidade, o pênis descomunal, como é descrito, o desejo à flor da pele, todos esses fatores enfim, vêm ao encontro da sua natureza primitiva que ainda faz parte de seu ser.     A sua natureza animal e o jardim aqui são muito significativos, e o jardim representa um microcosmo dos meios em que viveu, com todas suas maravilhas e mazelas. A fonte que há no jardim é uma alusão à natureza ambivalente de Guedali, pois ao mesmo tempo em que serve de apoio para Guedali e Fernanda consumarem um ato de prazer, também é o símbolo de um ato adúltero que acompanha Guedali e que remete ao caráter não confiável dos centauros mitológicos da Tessália.

            Guedali durante sua breve passagem pelo jardim, mesmo não sendo mais um “centauro”, age como um, carrega ainda marcas de equino que foi, como suas patas, e seu drama acentua-se a partir do momento em que se dá conta desse fato. A sua anormalidade como humano lhe causa sofrimento e desconforto, fato que mostra a permanência, mesmo que à sua revelia, como ser apagado, inexistente, como centauro, que não sabe a qual meio pertence e de qual faz parte. E esse desconforto o leva novamente ao Marrocos, para novamente se submeter à uma operação, mas desta vez, para retornar à condição de centauro.  



terça-feira, 28 de junho de 2016

Belle Epoque – Celso Borges e a brevidade pictórica



                                       (Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo)
 
 
Quando iniciei esta coluna em 2013, tinha o objetivo de resenhar escritores curitibanos que não fossem tão reconhecidos pela grande mídia. Por isso terra incógnita. Porém, aos poucos fui abrangendo meu corpus de pesquisa para escritores igualmente não canônicos de outras paragens, desde São Luis do Maranhão a Portugal; do interior de Minas a Maputo.

Meu primeiro contato com um escritor maranhense se deu no ensino médio, quando li (escondido!) o Poema sujo do Gullar. Que revelação naquele momento. Depois Aluísio Azevedo, o grande poeta José Chagas, Bandeira Tribuzi, até o Sarney (coisa da qual não me orgulho!).

Mais recentemente tive contato, através do grande amigo e doutorando em filosofia pela UFPR, Anderson Bogéa (natural de São Luís) com alguns poetas do grupo Pitomba, revista literária de uma relevância ímpar e também selo editorial. Numa das viagens de Anderson a São Luís, me perguntou se queria algo de sua terra natal. Disse para trazer algo típico de lá. Me trouxe uma lata de Guaraná Jesus e um exemplar da Revista Pitomba, um belo exemplar com poemas, contos e colagens ao estilo de um Valêncio Xavier. Muito originais os autores da Pitomba, principalmente três deles: Bruno Azevêdo, Reuben da Cunha Rocha e Celso Borges.

Todos têm seus trabalhos próprios publicados separadamente. Bruno Azevêdo tem um belo livro intitulado O monstro Souza; Reuben da Cunha Rocha (seu pseudônimo é Cavalodada) publicou +Realidades Q canais de TV; e Celso Borges tem trabalhos diversos na poesia e na música.

Celso Borges nasceu em São Luís. Autor de trabalhos de poesia, entre eles os livros CD XXI (2000), Música (2006) e Belle Epoque (2010) com participação de mais de 50 poetas e compositores de várias cidades brasileiras. Tem parceria com Zeca Baleiro, Fagner, Chico César, Nosly, Gerson da Conceição entre outros. Publicou a peça de teatro Rimbaudemonio: traições, colagens e iluminações no inferno (2014).

Belle Epoque segue as características experimentais dos trabalhos que Celso Borges desenvolve na Revista Pitomba, ou seja, nada de versos tradicionais, retos, caretas. Nota-se um cuidado especial com a imagem durante todo o livro. Seu formato remete àqueles álbuns de vernissage. Em seus versos, aliados a cores ora fortes ora obscuras, há claras alusões à desumanização, à banalização da violência, da sexualidade e tabus cotidianos há muito arraigados na sociedade contemporânea.

Belle Epoque ao mesmo tempo em que é bastante denso de ideias, é pictórico, e isso já se evidencia nas primeiras páginas, no próprio prefácio (prefácionão), de Reuben da Cunha Rocha. Alguns poemas flertam com os barrocos, alguns com os concretistas, outros com os poetas da geração de 45. Alguns poemas se aproximam muito do estilo de Leminski ao se auto-anularem como forma tradicional e aproximarem-se do texto publicitário. O leitor deve permanecer atento durante toda leitura, e mesmo assim, uma leitura nunca é suficiente. 

domingo, 22 de março de 2015

A CENA

* Por Mateus Senna
 
Em pleno mês de Março, Renatinho, sentado na banqueta mole de madeira molhada, contemplava os Santos da capelinha do botequeiro. “Ora bosta de Santos: Expedito, burro; Francisco, pobre; Benedito, preto! Cadê a porra do São Renato?”. Gole em pinga. Gole em cachaça. Golegolegole na gasolina do posto da esquina. Passa pra lá! Gritava o frentista. Bêbado maldito! Dizia o mendigo. “Sou o rei, o Rei Nato!”. Fechava Março com aguardentes, queimando o resto de verão. No passo torto deslizou o calçadão da rua XV; tropeçou no caminho dos cegos, caiu no chafariz, vomitou nalguns orelhões e urinou no chapéu da estátua prateada.  Avistou uma biblioteca. “Palácio de Rei Nato! Aí hei de ser”, abriu alas frente aos seguranças, entrou pelo lado da saída, fazendo o alarme anti-furto apitar, “Quem ousa roubar meus livros? Cobro no mínimo R$2,99 por essas pérolas!”. Senhor, retire-se. Pedia o segurança. “Seu cu, ó servo!”. Senhor, por favor. “Mete-te em teu lugar, vassalo insolente, há de se ver com minha justiça caso a mim se dirija novamente”. Pois bem. Um usuário irritado, brabo de tanto ler, pegou dom Rei Nato pelo colarinho, encaminhou-lhe porta a fora; um pontapé, soco na boca do estômago, cuspe bem dado na cara, recitou Batatinha quando nasce/ esparrama pelo chão/ o ébrio ego do tolo Santo Rei deposto. Profano bobo-da-corte.
 
*Mateus Senna é curitibano. Escritor e professor, já publicou nos periódicos Relevo e Flaubert.

A fio – entre a academia e a poética do cotidiano


    (Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo - Janeiro 2015)
 
Os leitores de poesia estão cada vez mais restritos aos meios acadêmicos, salvo alguns grupos alternativos isolados, como o bom grupo Epopeia, de Curitiba. Há mais restrição ainda quando se trata da poesia produzida em Curitiba, pois o público curitibano é autofágico, além de o gênero poético não ser muito popular.

Em Curitiba há os clássicos medalhões que boa parte do público conhece (pelo menos os nomes) que fazem parte da cena local, como Helena Kolody, Paulo Leminski, Marcos Prado (mais comentado do que lido) e outros que fazem parte de antologias hoje só encontradas em sebos, como Rocha Pombo e Emiliano Perneta.

A poesia brasileira atual é bastante heterogênea, e em Curitiba não é diferente. Há um número bastante razoável de bons poetas na ativa, como Luiz Felipe Leprevost, Renato Vieira Ostrowski, Willian Tecca, Ivan Justen Santana, Álvaro Posselt, Luci Collin, Ricardo Pozzo, Otto Leopoldo Winck, Marcelo Sandmann e vários outros.

Dos poetas mais relevantes de sua geração, Marcelo Sandmann transita entre a academia e a música popular, entre o lirismo e uma espécie de pós-concretismo. Marcelo Sandmann nasceu em Curitiba, em 1963. Professor de literatura da UFPR, publicou Lírico renitente (Rio de Janeiro: 7Letras, 2000), Criptógrafo amador (Curitiba: Medusa, 2006), Na franja dos dias (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012) e A fio (Rio de Janeiro: 7Letras, 2014).

A fio é composto por 37 poemas e Sandmann transita entre versos livres, sonetos, alexandrinos, demonstrando domínio notável do fazer poético em formas diversas. Como domina com precisão a forma fixa, Sandmann provoca o leitor a forçar seu repertório poético e a desvendar seus meandros intrincados.

Há em boa parte dos poemas um flerte com o óbvio em que, em várias situações, lembra Drummond. Inclusive há algumas citações ao mestre de Itabira. No poema Orgulho da influência nota-se essa recorrência.

O poeta ideal?

Drummond,

Pelo crivo de Cabral.

(P. 33)

Há de se levar em consideração em vários poemas a preocupação com a metalinguagem, como no poema Menos que menos.

Menos,

Eu quero menos.

(Menos que menos.)

Das reticências,

um ponto

apenas.

Somente o mínimo, o ínfimo.

Talvez nem mesmo,

por exagero,

o pingo no

i.

(p.39)

No poema Elpenor Revisited (take 5) é interessante o encontro entre erudição e informalidade, o que aponta certo desapego com formas poéticas tradicionais. Sandmann assimila com propriedade rupturas com o tradicional tão presentes na chamada pós-modernidade, assim como no belo Última ceia, no qual há uma releitura do mito bíblico, o que também ocorre no poema Dois excertos bíblicos (primeira e segunda quedas).

Poeta extremamente relevante no cenário brasileiro atual, Marcelo Sandmann mostra ter domínio da técnica poética desde poemas mais elaborados, com formas fixas, a versos livres, mais leves que flertam com o óbvio do cotidiano.

Última ceia

E eis que algumas palavras

Saltam para fora

De um rio caudaloso e barrento

E estatelam-se na pedras

E ressecam ao sol

Peixes que salgo

Com o suor do meu rosto

Preparo

Reparto

Mastigo

Aqui com vocês

Nesta mesa comum

Ainda uma vez

Nossa última ceia.

(p.56)  

Jaboc: labirintos narrativos


                      (Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo - Dezembro 2014)
 
Escrever sobre o ato de escrever não é novo nem original na ficção, mas tema recorrente abordado por diversos escritores. João Cabral de Melo Neto, Drummond, Vergílio Ferreira, Cristóvão Tezza, Cezar Tridapalli se ocuparam, em algum momento de suas respectivas produções literárias, com a metalinguagem. Escrever sobre o ato de escrever parece não interessar tanto um público não afeiçoado à literatura mais elaborada, pensada, com enigmas deixados para o leitor, mas mesmo assim foi tema bastante explorado por autores diversos.

Para ficar em nossas paragens, fora os já citados Tezza e Tridapalli, Otto Leopoldo Winck é um dos escritores que se ocupou com a metaliteratura no belo Jaboc (Garamond, 317 pag.), romance de 2006 que só agora descubro. Otto Leopoldo Winck nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. Winck vive em Curitiba desde anos 80. É doutor em estudos Literários pela UFPR e professor de literatura na PUCPR. É poeta, contista e romancista.

Joboc, seu primeiro romance, narra as desventuras de um professor universitário que, em meio a leituras de Fernando Pessoa e muito blues de Muddy Waters, Robert Johnson, Jimmi Hendrix e tantos outros, está escrevendo um romance, e esse processo de escrita é repleto de percalços, sofrimento e muito álcool. O livro que o protagonista escreve é sobre um homem que está escrevendo um livro, técnica denominada de mise en abyme, história dentro da história.

Durante toda a narrativa há referências sugeridas, mas facilmente identificáveis, a Curitiba e à cena literária local, com suas batalhas de ego de escritores provincianos, com suas pequenezas e idiossincrasias. É interessante ressaltar que Winck critica essas pequenezas literárias à distância, através de seu personagem, o que lhe confere certo distanciamento ao apontar as mazelas e mesquinharias literárias de um meio pretensamente erudito, mas que ao ser ironizado, nada mais é do que um desfile de escritores blasé que buscam, desesperadamente, terem mais relevância do que suas próprias obras.

Conforme a ação vai transcorrendo, o protagonista vai sofrendo uma espécie de mutação em seu modo de agir, pensar, escrever. De acadêmico de reputação ilibada, trabalhador assíduo e bem quisto no departamento de letras de uma universidade particular a funcionário relapso, mal vestido, deprimido, beberrão e imerso no seu projeto particular de escrever um livro a qualquer preço. Somada a frustrações profissionais, há também uma iminente crise temporal, pois sente-se velho e já impossibilitado de relacionar-se como era no passado. O símbolo disso é a relação que inicia com Virgínia, sua aluna do primeiro ano de Letras, linda e transbordando juventude, como se fosse seu nêmesis.

Uma das chaves (ou dicas sutilmente deixadas por Winck) para a compreensão do romance é seu título, que é uma alusão a Jacó, personagem do antigo testamento que em uma luta com um anjo misterioso muda completamente seu modo de agir se rendendo ao chamado divino, o que é uma bela metáfora ao fazer literário, pois simboliza a imagem do escritor em uma batalha feroz com as palavras. Se o escritor se rende ou não, não é relevante, mas sua forma de buscar seu momento nevrálgico é o que vale no fim.
 
A questão de sempre estar fazendo a mesma coisa sem ter resultados é bastante evidente no romance, sendo simbolizado pelo mito de Sísifo, que segundo a mitologia grega, levava uma enorme pedra ao alto de uma montanha. A pedra rolava para baixo e Sísifo a levava para o alto da montanha novamente e assim sucessivamente, sem nunca acabar. Portanto, a batalha do protagonista com as palavras e com o fazer literário é simbolizada pelos mitos de Jacó (hebraico) e Sísifo (grego).

Jaboc é o romance de estreia de Otto Leopoldo Winck e no ano de seu lançamento, 2006, venceu o Prêmio Nacional de Literatura Academia de Letras da Bahia. Com domínio da técnica narrativa e com repertório teórico bastante vasto, ao qual Winck recorre com frequência durante todo livro, Jaboc em momento algum é enfadonho ou soa pretensioso, pelo contrário, é ágil e a leitura flui do início ao fim. Winck acertou a pena neste seu primeiro romance e espero que Jaboc não tenha sugado toda sua energia.

NOTA SOBRE O TEXTO "A CAPITAL DOS EFÊMEROS"

Em novembro do ano passado, em minha coluna no Jornal Relevo, Terra incógnita, publiquei um artigo sobre o livro Golegolegolegolegah!, do escritor curitibano Márcio Renato dos Santos. Como em meu artigo faço algumas ressalvas ao livro do ilustre escritor, o Sr. Santos passou a me insultar nas redes sociais e a insultar o Jornal Relevo, nos chamando de canalhas, amadores, tendenciosos, medíocres, etc. Jamais escrevi uma resenha sequer para insuflar egos carentes e personalidades inseguras que se aproveitam de polêmicas para se promover. E foi o que aconteceu. Fica aqui minha gratidão ao Jornal Relevo pela parceria e pelo apoio, assim como minha gratidão a vários escritores amigos que fizeram suas minha causa contra a choradeira do gurizinho mimado das araucárias.

A capital dos efêmeros

(Artigo publicado originalmente no Jornal Relevo - Novembro 2014) 

Certa vez, ainda durante a graduação, um professor afirmou que Curitiba era a capital dos contistas. Muito devido a Dalton, pois o vampiro era e continua sendo um mestre que influencia e habita o imaginário coletivo da província, mas o professor também atribuía aos novatos, baseado em suas leituras de contistas mais novos, certo medo de se aventurarem na narrativa mais longa.

Discordando um tanto do professor, me deparo com frequência com contistas que não parecem, de forma alguma, serem temerosos em partir para narrativas mais longas, densas ou complexas, mesmo porque narrativa longa não é sinônimo de densidade ou complexidade. Vários dos bons contistas curitibanos (ou que produzem aqui) se aventuram nesse gênero ingrato por terem certo domínio da técnica da narrativa mais concisa. Bons exemplos de uma safra nova e muitíssimo competente de contistas são nomes como Rui Werneck de Capistrano, ReNato Bettencourt Gomes, Paulo Sandrini, Severo Brudzinski, Homero Gomes e vários outros.

Naturalmente às vezes criamos expectativas demais e nos decepcionamos com alguns escritores, caso de Márcio Renato dos Santos. Curitibano, nascido em 1974, Márcio Renato dos Santos é jornalista e mestre em Estudos Literários pela UFPR. Publicou seu primeiro trabalho de ficção em 2010, o belo livro de contos Minda-Au (Record, 2010. 80 págs.) Seu trabalho como contista nesse primeiro livro é bastante interessante, mostra um escritor preocupado com a forma e cuidadoso em não soar pseudo-experimental.

Já em seu livro Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores. 2013, 72 p.), Márcio Renato dos Santos deixa a desejar. O breve volume é composto por seis contos que são bastante ágeis, o que torna sua leitura fácil, mas enfadonha. Há durante todo o livro uma necessidade de soar como um autor pós-moderno, nonsense, o que depõe contra o livro como um todo, pois tudo é muito forçado, engessado, repleto de amarras estilísticas que se perdem no vácuo deixado pelo autor.

No conto Você tem à disposição todas cores, mas pode escolher o azul, o narrador assume um tom confessional, ele narra o que vê da maneira que bem entende para um possível interlocutor. Há abertamente a questão da metalinguagem, o que por vezes salva um ou outro fragmento. A coloquialidade é uma constante em vários contos, o que a princípio começa bem, mas depois torna-se cansativa e um tanto forçada.

A questão do distanciamento entre as pessoas, da ausência de comunicação na era moderna são motes dos contos como se fossem vozes que permeiam toda a obra. O conto Digital reverb delay é um dos bons contos do livro, digno do autor de Minda-Au. Nesse texto o narrador tem consciência de sua limitação como pessoa e de sua impossibilidade em se comunicar.

Mas, tenho de admitir, o que sempre me deixou calado foi a sensação de que eu nunca tive nem tenho nada a dizer, nem como dizer e, por isso, não precisava falar. Afinal, a gente abre a boca pra dizer as coisas, não é? Como nunca tive nada a dizer, minha opção sempre foi pelo silêncio.  (p.32)

O narrador admite não ter absolutamente nada a falar, e esse nada o representa. Há um embate existencial bastante significativo nesse conto.  

O conto que segue, Nevoeiro, é o mais relevante do livro. Nesse conto há a constatação do narrador de encontrar-se consigo próprio em todo lugar. A questão da empatia aparece aqui como uma espécie de antídoto contra a incomunicabilidade entre as pessoas. A predominância do plano onírico se sobressai ao plano real, dando a entender que o indivíduo apenas sonha em se comunicar, em sair de sua redoma imaginária, e não age por medo ou por algum motivo qualquer. O narrador diz não saber se sonha ou se de fato aconteceram as ações que narra.

Também parei de sonhar. O intervalo entre deitar na cama e acordar no dia seguinte era preenchido sabe-se lá com o quê. Eu não tinha mais insônia. Nem sonhos. (p.48)

A atmosfera onírica confere ao conto uma densidade ainda não experimentada nos contos anteriores. O grau de sugestão (as ações são sugeridas) são bastante relevantes para a composição da narrativa.  

Os dois últimos contos do volume, Zé Ruela e Cento e noventa, não se diferenciam muito dos primeiros, ou seja, nada muito relevante na forma nem no conteúdo, o que, até certo ponto, é um aspecto positivo, pois Márcio Renato dos Santos não é um escritor conteudista.

Um aspecto bastante relevante do livro é seu projeto gráfico, que é belíssimo. Aliás, é praxe da Travessa dos Editores fazer ótimos projetos gráficos. O livro é composto por belas ilustrações de Marciel Conrado. Mesmo que Golegolegolegolegah! apresente mais erros do que acertos, Márcio Renato dos Santos é um dos contistas relevantes da nova geração da literatura brasileira.